O que uma mulher quer?

Essa estória é antiga, mas nunca foi tão atual. Tenho contado esse conto nas oficinas sobre Autocompaixão e, diante de muitos pedidos, transcrevo-o aqui. Curiosamente, quem me contou não foi uma mulher, mas um querido amigo.

 

Em uma tarde, o rei Arthur e seu sobrinho saíram para caçar – atividade muito apreciada pelo rei. Durante o percurso, caminhando pelas montanhas, ouviram um som que parecia vir de um animal ferido. Preocupados, deixaram as armas de lado para verificar o que estava ocorrendo. Nesse momento, um outro rei cruzava o seu caminho juntamente com alguns cavaleiros e, percebendo que ambos estavam desarmados, afirmou:
– De agora em diante, vocês serão meus escravos!
Sem as armas, o rei Arthur e o seu sobrinho não podiam lutar. Entretanto, o rei se lembrou de um regulamento da época que permitia alguma forma de negociação, e apresentou-a ao outro rei, que respondeu:
– Pois bem. Faremos um acordo. Vocës têm um ano para me responder a uma pergunta. Se, durante doze meses, não souberem a resposta, serão meus escravos; se descobrirem a resposta nesse período, estarão livres. E a pergunta é: o que uma mulher mais deseja? O que uma mulher mais quer?
O rei Arthur e o seu sobrinho não tinham a menor ideia da resposta a essa pergunta. Saíram desconsolados, sem muita esperança de descobri-la… mas, se esforçaram; perguntaram a muitas pessoas do reino: sábios, magos, profetas… E ninguém sabia a resposta!
Quando estavam prestes a desistir, um dos sábios disse ao rei que havia uma bruxa que vivia no meio da floresta e que havia sido oráculo de grandes reis. Ela era a última e única esperança para os dois. Corajosamente, os dois homens saíram em busca da bruxa, em meio a uma floresta escura e completamente desconhecida.
Ao chegarem à casa da bruxa, se depararam com aspectos nenhum pouco prazerosos em sua presença. A bruxa não tomava banho, e seu cheiro desagradável era bastante forte e quase insuportável de estar perto. Ela também era muito feia, descabelada, cheia de verrugas e com unhas enormes. Além disso, a bruxa também era extremamente mal-educada: falava palavrões o tempo todo, e cuspia no chão. Apesar disso, os rapazes apresentaram a pergunta a essa mulher que, seriamente, disse:
– Eu sei a resposta. Porém, só contarei se um de vocês aceitar se casar comigo.
O sobrinho do rei Arthur, muito fiel ao rei e desesperado pela liberdade que estava prestes a perder, respondeu prontamente:
– Eu aceito me casar contigo.
A bruxa, então, cumpriu com a sua promessa:
– Então, eu direi a resposta. O que uma mulher mais quer, o que uma mulher mais deseja é ser aceita e amada incondicionalmente, e ter soberania sobre a sua vida.
Os dois homens, assim, bravamente correram em direção ao outro reino para afirmarem a sua liberdade. O outro rei, no entanto, estava um tanto quanto convencido de que eles não tinham a menor ideia das verdadeiras necessidades de uma mulher. O rei Arthur, então, disse a ele:
– O que uma mulher mais quer, o que uma mulher mais deseja é ser aceita e amada incondicionalmente e ter soberania sobre a sua vida.
O outro rei exclamou:
– Malditos!
O rei Arthur e o seu sobrinho, finalmente, estavam livres. No entanto, a cerimônia de liberdade não era exatamente uma celebração, pois havia um casamento que precisava acontecer naquela noite. O casamento ocorreu, do sobrinho do rei com a tal da bruxa, em uma cerimônia que se parecia mais com um funeral.
Na noite de núpcias, a bruxa diz ao seu novo marido:
– Você foi muito fiel por ter cumprido com a sua promessa. Se quiser, pode se deitar em outra cama.
Gentilmente, ele respondeu:
– De maneira alguma. Agora, eu sou o seu companheiro, e me deitarei ao seu lado daqui pra frente.
Na manhã seguinte, ele acorda ao lado de uma mulher linda. Intrigado, pergunta a ela quem é, e ela responde:
– Eu sou a mulher com quem você se casou. Mas, agora, você tem uma escolha a fazer: eu posso ser essa mulher durante o dia, e a noite sou bruxa; ou, o contrário, durante o dia sou bruxa, e à noite sou essa mulher que você está vendo. O que você escolhe?
O sobrinho do rei Arthur, que já tinha aprendido alguma coisa, respondeu à sua esposa:
– Essa pergunta é muito importante, pois impactará na sua vida como um todo, e na forma como você será vista pelas pessoas. É muito importante que você tenha soberania pela sua vida e, portanto, a escolha é sua.
A mulher disse a ele:
– Você acabou de quebrar o feitiço sob o qual eu era vítima e, agora, eu serei assim pra sempre.
É sempre possível observar um fato ou relato sob diversos pontos de vista. Já ouvi pessoas dizendo que essa se trata de uma estória feminista, mas também ouvi pessoas dizendo o contrário.
Deixando um pouco de lado, nesse momento, a discussão sobre gêneros e as necessidades que têm vindo à tona quanto a questões de igualdade, do ponto de vista de algumas abordagens da Psicologia, todo conto ou estória retrata componentes internos da psique que precisam ser olhados. Internamente, todos nós possuímos representações de aspectos masculinos e femininos. E é disso que essa estória trata: internamente, há, em cada um de nós, uma parte que, embora asquerosa e não desejada, precisa, desesperadamente de amor incondicional. Essa parte só se transforma quando a aceitação total acontece, um movimento alquímico que ocorre a partir de um espaço que é concedido a fragmentos e aspectos não reconhecidos pelo ser. Ao contrário do que aprendemos, quanto mais resistimos, rejeitamos, negamos ou tentamos expulsar, mais o sofrimento permanece internamente e, mais cedo ou mais tarde, virá nos atormentar (através de adoecimentos, por exemplo).
Portanto, a pergunta “o que uma mulher quer?” diz respeito a uma pergunta mais ampla: “o que todos nós, seres humanos, mais precisamos?”. E a resposta segue sendo o tema mais tratado em livros, artes e relações durante toda a história da humanidade: amor. Talvez, de algum modo, enquanto não saibamos nos oferecer o que desesperadamente precisamos, tentaremos resolver ou obter isso externamente. Felizmente, essas partes feridas e rejeitadas nunca se calam; elas já são o seu próprio remédio.
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2 comentários em “O que uma mulher quer?

  1. Eu, privilegiada que sou, já ouvi você contar essa estória algumas vezes, mas não me canso de ouvi-la. Quando aprendermos a amar de forma incondicional a nós mesmos e a todos os seres viventes do universo, então, teremos aprendido o que é o Amor! Linda estória ❤️

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